Pornografia Erótica

Quando o assunto é sexo, rapidamente alguns termos pejorativos são associados automaticamente. Tal equívoco ocorre de maneira mais explícita quando o assunto é a pornografia, que atualmente é associada diretamente à exploração, modelos homofóbicos e falocráticos. Porém, ao falar de erotismo as coisas mudam, dando um tom mais brando, sofisticado e com ares de superioridade. Essas ligações são discutíveis e de fácil descontrução se analizarmos um conceito mais elaborado dos termos em questão.

Tomando conceitos etimológicos, sem exigir que os significados das palavras não mudem com o tempo e situação em que estão inseridas, pornografia é o registro de uma atividade de prostituição, que por sua vez se refere a uma atitude de deixar-se a mostra, posar, expor-se. Prostituir tem um radical menos agressivo do que é atribuído, o mesmo radical de estátua , que refere-se a repousar, imobilidade e postura. Erotismo é referente a amor, paixão e desejo ardente, que, apesar de mais agressivo que a origem de pornografia, é associado a um conceito mais brando. Há uma separação como se fossem coisas completamente separadas e muitas vezes antagônicas, o que é consideravelmente deturpado. Tanto é que no mundo das artes a linha entre pornografia e erotismo é muito tênue conceitualmente mas qualquer um pode diferenciar o que hoje chamam de pornografia e arte, apesar de pela origem da palavra, o desejo retratado, a paixão registrada e o amor declarado, e então exposto, seriam também pornográficos e não exclusivamente eróticos. A paixão, desejo e amor, sentimentos que não cabe aqui discutir mas sim pontuar que precisam fundamentalmente de algum contato, mesmo que em pensamento, não fogem da idéia de retratar, registrar o parceiro ou a parceira pelo prazer voyeur ou pelas reações que a presença mesmo que virtual provoquem.

O erotismo é algo que pode não ser pornográfico, no sentido aqui abordado, porém a pornografia é necessariamente erótica, ocorrendo muitas vezes porém, ser erótico apenas para um grupo restrito de pessoas. Temos outro ponto que ainda hoje, e por muito tempo, tornará esses conceitos nebulosos e pessoais. O que define o que é erótico é quem o produz ou quem observa? Há em textos de artistas conceituando essas duas palavras referências à participação do observador, como se na pornografia o estímulo à participação fosse direto, convidativo de forma objetiva, e no erótico esse convite é mais brando e subliminar, o que condiz com o conceito de que o pornográfico expõe e o erótico faz desejar. Isso expande grandemente as possibilidades de interpretações sobre erotismo e pornografia, cabendo a cada observador captar a presença de uma exposição, ponderar o nível de desejo que sente e analizar o quão convidado a esse sentimento ele foi. Analisando por essa ótica, facilmente descontruimos os valores pejorativos e criamos um ambiente de maior tolerância e menos preconceito, o que não significa de forma alguma que deve-se aceitar qualquer pornografia como erótico para todos os observadores pois isso não existe devido a multiplicidade humana, mas sim considerar e repensar sobre o que hoje é exposto em nosso meio. Há realmente uma constante supervalorização de um modelo visual aceitável, uma beleza plástica e perfeita como se fosse a única fonte de potencial erótico, o registro desses valores é a pornografia de hoje. Tais padrões são inseridos nas mídias de forma que não percebemos quem as coloca, dando uma impressão de que é fruto de um desejo coletivo, portanto o papel da imprensa é colocá-lo em foco. Porém esse processo é uma via de mão dupla onde quem começa as coisas é quem tem mais poder, em nossa democracia, uma minoria com alto poder monetário, controlador exatamente da mídia, e em seguida a maioria submetida a essa influência pede por mais dessa sugestão subliminar.

Constantemente fugindo da realidade esse padrão de erotismo castra e deforma a auto estima da população, que por sua vez não enxerga a pornografia com um olhar atento e profundo. Essa falta de intimidade com o assunto não é de forma alguma diferente com as relações observadas entre o ser mergulhado no ambiente atual, ela é uma característica. Os contatos que temos são superficiais e fúteis, chegando muitas vezes a resumir-se em uma virtualização da possibilidade. Porém a pornografia, como foi proposto anteriormente e não a do senso comum, tem uma essência de devaneio, catarse, desejo e sentimentos que normalmente não conseguem se submeter às vontades de sistemas políticos e organizações sociais, tem imersa um poder que não estamos, hoje, cientes da possibilidade do uso.

Transgredir e subverter a nossa pornografia contemporânea, repleta de discursos opressores e agressores, é simplesmente deixá-la mais próxima de sua origem erótica, podendo trazer tanto ao observador quanto ao observado uma libertação em vários sentidos. Praticamente toda pornografia publicada hoje é gerida e controlada por uma indústria pornográfica que agrega a esses registros um ar de produção em série e massificação, retirando completamente a riqueza da imaginação erótica individual. Tal forma de produção específica, perfeitamente compatível com as formas gerais, causa um dano de difícil reparo aos seus consumidores, a começar pela criação de um mercado de desejos e fantasias. O consumidor de pornografia acaba por buscar em reproduções dos atos um prazer real, perdendo-se muitas vezes sem volta nesse caminho.

A mercadoria pornográfica gerada por essa fábrica de modelos e sentimentos sintéticos tem total acesso às vidas de toda a população, não necessitando esforço nenhum do futuro observador em procurá-la, o que o torna antes mesmo de adestrar-se, um agente passivo em sua própria construção sexual. Passividade totalmente favorável ao fortalecimento e propagação das mensagens imbuidas na pornografia, uma vez que, ninguém se dispondo a questionar de maneira profunda o que é apresentado, torna-se a via de mão dupla da imposição subliminar e o desejo ensinado.

À partir do momento que está criado o sentimento consuidor no sujeito, entra em vigor todo o processo de publicidade e propaganda de um produto, surgindo então um ambiente de competição entre os produtores que tentam produzir algo que venderá mais e portanto mais rentável. Aqui nascem os gêneros de pornografia, fatiando o inconsciente para produzir sob medida. Nessa divisão morre o espontâneo e real, dando origem à um estereótipo que por sua vez cria uma subdivisão no mercado consumidor, temos, como no modelo macroscópico da sociedade, a criação de especializações. O especialista vai buscar a forma mais extrema e pura do modelo para dessa forma poder atingir mais concisamente o seu público alvo. Nada escapa dessa rotulação e organização dos sentimentos eróticos alheios. Dessa forma, com as portas abertas e todo incentivo cultural para seu crescimento, a pornografia insere em sua criação, mensagens que repetem as idéias de seu meio ambiente visivelmente masculino, sexista e ambicioso, com apelo falocrático, heterossexual e subjulgador, resumindo-se a uma proposta de produção voltada para criar uma imagem de macho domintante que possui a fêmea de forma unilateral e está livre para poder desejar sempre mais. A única forma de homossexualidade parcialmente aceita na pornografia padão é o lesbianismo fetichista que só é válido sob a condição do macho ser duplamente satisfeito. Mas como dito, existem gêneros específicos de pornografia, o que nos levaria a pensar que todas as camadas econômicas, sociais e todas as possíveis segregações da sexualidade teriam um espaço nesse mercado, o que não passa de uma ilusão.

A indústria pornográfica além de procurar produzir principalmente o modelo padrão, não tem interesse, visto que está submetido a um poder maior que também não tem, na produção de alguns gêneros, fortalecendo a ignorância e superficialidade do conhecimento de alguns segmentos da sexualidade e ativando um preconceito pelo desconhecido ou estranho. A parcela excluída desse mercado sente a carência de ver-se em um contexto pornográfico e então deduz que a pornografia é ruim por ser excludente e unilateral. O equívoco é enxergar o resultado de uma mutilação mercadológica como conceito. Há outras reações dos consumidores que não são essencialmente contemplados, por exemplo a remodelagem da sexualidade que leva uma mulher a aceitar uma conduta sexista e um homossexual não se ver como um ser erótico. Ambas resultado da falta de retorno por parte da produção.

Quando nos desprendemos de valores e idéias que subjulgam um semelhante, invariavelmente estamos dando um passo positivo se nosso destino é melhorar, seja no campo pessoal ou social, uma vez que mesmo mais individualista que possa ser uma decisão, há influência de um fator social. O registro das atividades sexuais que nos são mostrados são uma agressão à livre escolha, à participação ativa em sua própria orientação sexual. Prostituem uma beleza padrão e escondem as individualidades, só é colocado sob nosso alcance aquilo que esse emaranhado sistemático de poderes sociais e políticos acordaram em disponibilizar. Agredindo as personalidades e subjulgando o desejo puro por uma plastificada imagem de perfeição irreal, fazendo-nos crer que a realidade é como a projetada por sua cópia embassada e então desejando-a como se fosse possível realmente tê-la. Tal prostituição não é mais que uma reafirmação dos valores. Surge então a necessidade por parte daqueles que não estão satisfeitos com o que é apresentado de não esperar ser atendido pelo mercado, uma vez que estando dentro, torna-se parte do ciclo, mais um gênero submetido ao mesmo tratamento de todos os outros.

A sexualidade altera completamente nosso cotidiano, para observar isso, basta atentar às motivações das pessoas. Um bom emprego para acumular bens para auto stisfação é uma parcela mínima dessas motivações. Como um animal em uma eterna dança de acasalamento, os bens materiais são usados exatamente para, semelhante às plumas de alguns pássaros, atrair um parceiro ou uma parceira. Dificilmente encontramos motivações que não tenham ao final essa linha de raciocíno. Biologicamente, somos uma complexo arranjo de material orgânico que está sujeito às reações do meio em que vivemos, submetidos à reações químicas e impulsos elétricos. É de fato, uma ignorância desconsiderar uma parte essencial da vida, a reprodução. Para que funcionemos perfeitamente, é necessário que existam tais reações em nosso corpo, alterando o ciclo biológico. Maior ignorância é desconsiderar tais acontecimentos em prol de valores sociais. Como dito, há sentimentos, aqui tratados de forma analítica e biológica, que não estão submetidos à organizações políticas e/ou sociais. A pornografia então torna-se um modelo de prostituição em massa desses valores. Reformular esse modelo é importante para darmos passos em direção a uma considerável melhoria qualitativa das relações humanas, fundamental para uma manutenção da vida, sabendo que o ser humano é necessariamente social. Há outro aspecto importante que diz respeito a uma tendência do humano ao registro, como evidência a separação do tempo em antes e depois da escrita. Ferramenta útil para o presente e futuro, pois rapidamente nos tornamos um passado inalcansável exceto pelos registros da época. Também é uma maneira consideravelmente eficaz ao atender o desejo de expressar-se. O registro das atividades humanas interfere nelas mesmas, num processo binário e cíclico. Sexualidade e registros são dois segmentos de extrema importância para a sociedade. A junção deles é a pornografia. Não se deve cair no equívoco de condenar o resultado deturpado, pois feito isso desconsideramos a importância de ambas. Ao depurar as informações, buscar conceitos originais e essenciais, teremos um terreno propício para decidirmos ativamente o que se quer individualmente e então ter embasamento suficiente para criar um erotismo pessoal e registros deles livremente, repudiando não a pornografia, pois é uma forma de expressão de uma mensagem, mas o que está debaixo dos panos do modelo opressor de nudez.

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~ por Alfredo em julho 28, 2008.

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